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AZIZI MC

Ooh, eu sou a bicha que mais rima nesse clube
Não me fascina mas cês quer lamber meu cookie 
Ninguém se mexe ou engatilha
Retrocesso eu estou uma pilha 
Ando a frente eu estou acima 
Pega a visão a bicha tá icy
Minha rima é de peso, comando no mic 
Eu saio ileso, sou muito eficaz
Se alguém duvidou que não sou capaz
Eu tô icy, icy, icy

Ovacionado, o mais recente lançamento de Azizi MC, compartilha da mesma essência que o rapper mineiro de 25 anos apresenta desde o início da carreira: de se impor como um MC abertamente gay, afirmando seu espaço não só no rap, mas na cultura hip hop.

Em um de seus primeiros singles, Copycat (2017), o artista já dirigia seu verso às pessoas que o criticavam e desmereciam seu trabalho, e continua, desde então, carregando a imponência como uma de suas principais armas ao confrontá-los e exigir respeito. “Na maioria das vezes, eu direciono meus versos para pessoas da cultura hip hop que – em sua maioria – são héteros, machistas e homofóbicos”, assume Azizi. “Que não entendem que essa representatividade é importante e que pessoas como eu podem, sim, falar de suas vivências, suas experiências, na cultura hip hop.”

É este o tema de rap de viado (freestyle), o vídeo mais visualizado do seu canal no YouTube. Em uma pista de skate, com um taco de beisebol em mãos e vestindo corrente e brincos de argola, um Azizi MC no início da carreira avisa: “Eles dizem que eu não sou do rap e que pra entrar tem que pedir licença / Mas eu não sou mais um modinha, sou muito melhor do que cê pensa (…) Esse palavreado homofóbico não me irrita / Se eu sou viado, então agora é rap de bicha.”

Foto: /gabrielzcgw
Foto: /gabrielzcgw

Do rap de bicha surgiu, em 2019, Gueto Poc, o primeiro EP de Azizi. O título resgata a essência do rapper: Gueto diz do lugar em que cresceu, na região nordeste de Belo Horizonte, e de onde vem grande parte de suas influências; Poc é o que ele representa e o espaço que busca conquistar como bicha no hip hop. Entre parcerias com Iza Sabino e Ventura Profana, as seis faixas do EP continuam o legado do rapper de declarar, de forma autoritária e debochada, sua presença nesse espaço. 

Agora, com Ovacionado, ele abraça de vez a influência do trap em sua música – que já aparecera em outros de seus trabalhos – e celebra sua personalidade gaygster (uma brincadeira com o termo gângster). Mas quem vê essa figura potente e combativa, não imagina que, por trás dela, existe um trabalho minucioso de planejamento feito por um artista que deseja ser ouvido e que assume uma nova personalidade para alcançar esse objetivo.

CONSTRUINDO AZIZI

“Eu sou um artista que vem da performance, Azizi MC é uma performance”, explica o rapper durante nossa entrevista. Conversar com o nome por trás de Azizi é uma experiência bastante diferente de ouvir suas músicas. A voz cheia de atitude e dominante dos versos dá lugar a uma doçura inesperada, que só se intensifica durante o papo.

Não é Azizi quem está do outro lado da tela, mas sim, Izaque Bohr – seu nome verdadeiro, que utilizou durante a primeira investida na música. O contato de Izaque com o rap veio naturalmente enquanto crescia, convivendo em pistas de skate e participando de eventos de rua em Belo Horizonte. “Eu sempre admirei o universo hip hop, principalmente de divas do rap, Lil’ Kim, Nicki Minaj, Queen Latifah”, conta. “Isso me deixava muito curioso: como seria se a gente tivesse um representante homossexual, dentro do hip hop?” 

Em 2016, Izaque lançou o disco Desafio Duplo, produzido durante uma formação técnica em Artes Visuais no estúdio da escola com a ajuda de professores e colegas. O trabalho, que já abordava temas ligados à orientação sexual e ao preconceito no meio do rap, o ajudou a construir sua identidade como artista e a percepção de criação musical.

Foto: /brunoamarantes
Foto: /brunoamarantes

Àquela época, o paulista Rico Dalasam já havia iniciado a carreira trazendo elementos de suas vivências como homem gay ao rap com o lançamento do single Aceite-C (2014) e o EP Modo Diverso (2015), mas só em 2017 passaria a ganhar notoriedade a nível nacional. 

Após se lançar oficialmente na cena rapper como pioneiro em Minas Gerais, Izaque sentiu a necessidade de criar o Azizi MC – uma persona livre de inibições que funciona, ao mesmo tempo, como arma e armadura para o artista: “O Azizi veio justamente para suprir algumas necessidades, principalmente, psicológicas, de questão de identidade, de me identificar como artista. Eu precisava ter esse outro lado – um momento em que eu separasse minha vida pessoal da artística. (…) Acabou sendo uma solução criar uma nova persona para interpretar algumas nuances da minha vida pessoal, que, na verdade, não me senti muito confortável de trazer para a arte mesmo.”

O artista também se dedica à vida acadêmica como graduando em Artes Visuais e a trabalhos como diretor artístico, gestor e produtor cultural e educador artístico. Com o Azizi, ele consegue se deslocar mais facilmente entre os diferentes setores de sua vida, enquanto cria novas oportunidades de diálogo com o público. “A performance está ali para representar uma parte da minha vida que eu tento contar de forma mais direcionada”, compartilha. “Consigo trabalhar pontos da estética, da personalidade, da presença nas redes sociais e no palco, e fica mais fácil expressar meus sentimentos, o que eu quero dizer com aquilo.”

Bastidores do videoclipe Ovacionado
Bastidores do videoclipe Ovacionado

Essa personalidade que criou também o ajuda a lidar com um obstáculo desafiador para um artista que deseja tanto ser ouvido: a timidez. “No dia a dia, sou uma pessoa completamente diferente do que as pessoas veem”, comenta. “Muita gente critica, achando que eu não tenho verdade no meu trabalho, por estar interpretando uma personalidade, mas é uma personalidade que reflete minha própria vivência. Tudo faz parte da minha cabeça, é meu intelecto, então passa muito pelas coisas que eu vivo.”

Azizi MC só existe por conta das inúmeras referências que o artista resgatou em suas origens, seus interesses e, também, em sua ancestralidade como um homem negro gay. Na falta de uma figura que o representasse no cenário hip hop, buscou, em diversos lugares, referências para moldá-la.

DO QUARTEIRÃO DO SOUL AO BALLROOM

Olá! Eu sou Azizi MC e quero que vocês, por favor, recebam diretamente do meu passado, cantando o tema Sou do Soul: com vocês, Izaque Bohr.

Essa é a introdução de Azizi no videoclipe de Sou do Soul, um projeto especial feito em parceria com o programa de entrevistas Road Movie Paçoca homenageando um evento da cultura negra tradicional da capital mineira: o Quarteirão do Soul. No vídeo, de 2018, o artista encarna novamente seu alter-ego em uma recriação dos bailes black que aconteciam na cidade na década de 70, enquanto canta sobre as tradições da música soul: O movimento funk-soul já tem miliano / E até hoje a tradição vai continuando / O mais velho ensina para o mais novo / E cada um vai aprendendo de pouco a pouco.

“As minhas influências também passam pelo lugar de onde eu vim, pela periferia de Belo Horizonte, e é muito importante, para mim, falar desse resgate da cultura”, comenta Azizi enquanto explica sua busca por referências. “Hoje em dia, a gente tem uma predominância da cultura sendo apropriada por pessoas brancas, que ganham destaque dentro de uma cultura criada por pessoas negras. A gente já viu isso acontecendo com o rock, o blues, e são referências que estão presentes no meu trabalho e procuro sempre homenagear.”

Atualmente, ele faz parte da House of Azeviches, uma casa de vogue associada à cultura ballroom, que, segundo ele, é a primeira house de Belo Horizonte formada somente por pessoas negras. Assim como fez com o Quarteirão do Soul, sua presença na ballroom – uma cultura originalmente norte-americana, formada por pessoas negras e latinas, sobretudo, transexuais – também faz parte desse movimento natural de resgate presente em seu trabalho artístico.

Videoclipe Ovacionado
Foto: /gabrielzcgw

Dela, ele também buscou inspiração para a potência visual de Azizi MC. Muito diferente – ou até oposta – do que estamos acostumados a ver no cenário do hip hop, a estética do rapper fala tão alto quanto seus versos e evidencia seu lugar como bicha afeminada em um espaço majoritariamente heterossexual. E, nessa busca por referências para a construção visual de Azizi, ele se encontrou em vários lugares.

“Essa percepção visual passa muito por uma pesquisa grande que tive de construção estética”, explica. “Isso veio, principalmente, da cultura ballroom, do vogue, e também de referências da estética africana. São estilos de vida que eu tento trazer para minha estética visual – do afrofuturismo e do cyberpunk, que são propostas estéticas e de estilo de vida com as quais me identifico muito e vivencio no dia a dia.”

Foto: /dilsonferreira
Foto: /dilsonferreira

“Eu, basicamente, tento trazer a imagem de um negro, gay, afeminado, afro-latino-americano”, completa. “E todas essas referências de regionalidade, ancestralidade e cultura visual passam por meio do meu trabalho.”

“EU SOU UM RAPPER, UM MC QUE CANTA RAP, E O ÚNICO DETALHE É QUE EU SOU GAY”

Se, quando ingressou no universo da cultura hip hop, Izaque não se via representado na cena, hoje o cenário mudou. Nomes como Rico Dalasam, Quebrada Queer e Monna Brutal passaram a figurar nas listas e playlists de um nicho musical importado dos Estados Unidos: o queer rap.

Em um primeiro momento, atribuir esse título à categoria do rap formada por pessoas LGBTQIA+ soa como algo positivo, um sinal do avanço da cultura rapper quanto à inclusão de artistas como Azizi MC em seu meio. Porém, para ele, o termo acaba criando uma divisão capaz de segregar ainda mais esses artistas.

Foto: /gabrielzcgw

“Eu, particularmente, acredito que essas denominações de estilo musical LGBTQIA+ acabam separando a gente em caixinhas, colocando um selo, dizendo: isso é gay, isso é LGBTQIA+”, justifica. “Algumas pessoas até denominam [minha música] como rap gay, mas eu não gosto de me identificar dessa forma. Eu sou um rapper, um MC que canta rap, e o único detalhe é que eu sou gay.”

Azizi acredita que o queer rap sugere a criação de um novo gênero musical, quando o ideal seria entender que esses artistas, que carregam algo em comum, potencializam um gênero já existente. “Às vezes, pode ser bom, no sentido de fortalecer e criar novas propostas, mas pode ser ruim, no sentido de separar mesmo da cultura.”

O posicionamento do artista vai ao encontro de outros nomes LGBTQIA+ no rap, como Mykki Blanco, rapper, performer e ativista norte-americana considerada pioneira no hip hop. “Eu me lembro de dizer ao meu primeiro empresário (…): ‘as pessoas vão me colocar o rótulo de rapper gay’”, contou em entrevista à revista Billboard. “E vou ter que provar de novo, de novo e de novo [que sou mais que um rótulo].”

Por outro lado, Azizi entende que a união de artistas LGBTQIA+ em cenas musicais e artísticas pouco abertas a eles, como o sertanejo e o próprio hip hop, tende a fortalecer a presença deles em um cenário que pode ser muito competitivo. “Lutando por espaço, a gente vê que a comunidade LGBTQIA+ procura somar entre si”, comenta. “Para um artista crescer, ele deve crescer com outros. Se um cresce, outros do mesmo segmento vão crescer juntos.”

Mas, se ele prefere ser chamado de rapper ou MC, e não de rapper gay, não fará nenhuma objeção se passar a ser conhecido por sua nova alcunha: para além do rap, agora Azizi MC é gaygster

PEGA A VISÃO A BICHA TÁ ICY

Capa do single Ovacionado
Foto: /gabrielzcgw

Azizi acredita que sua aproximação com o trap – um braço do rap que surgiu nos anos 2000 nos EUA -, com o lançamento de Ovacionado, trouxe uma versão mais atualizada de seu eu artístico, para além da música. E não dá para negar: a postura de Azizi MC nunca foi tão debochada e ostensiva, e, assim como tudo o que envolve a construção dessa performance, a mudança foi premeditada.

“Hoje em dia, acho que a gente acaba tendo que fazer as pessoas sentirem medo da gente, em qualquer espaço, ou vamos ser desrespeitados, silenciados, e não vamos mais ter essa força”, confessa. “Então, o que eu trago com essa pegada é vir de forma mais agressiva para não deixar margem para alguém falar alguma coisa, criticar, tentar silenciar.”

Mas a decisão também foi influenciada por uma questão mercadológica: marcado pelo rap de viado, lema que lançou durante a fase Gueto Poc, ele procura se destacar com uma nova marca em um cenário onde outros nomes LGBTQIA+ surgiram fazendo rap. Agora, Azizi MC expandiu para o universo gângster e espera conquistar ainda mais espaços, além do hip hop. 

Foto: /gabrielzcgw
Foto: /gabrielzcgw

“Nesse meu último lançamento, estou propondo uma nova faceta do meu trabalho, mais movida pela estética e a comunicação visual”, explica quando perguntado sobre as mudanças que a fase atual deve trazer à carreira. “Porque, além [de buscar o interesse] do público LGBTQIA+ que se identifica com o hip hop e o rap, eu também estou trazendo um pouco da comunidade LGBTQIA+ para o universo do hip hop.”

Azizi parece se preparar para sua faceta mais pop, até agora. Unindo referências do mainstream e de nomes norte-americanos (sobretudo, Lil Nas X, Mykki Blanco e Le1f) às influências que ele traz dos cinco anos de carreira e de suas raízes, ele espera mostrar ao público a potência que um artista LGBTQIA+ pode alcançar no meio hip hop.

E fará isso, um single de cada vez. “Ainda continuo trabalhando de forma independente, produzindo boa parte do material que eu lanço”, conta. “Agora, construí um estúdio e estou começando a trabalhar de forma ainda mais independente e isso vai ficar mais nítido no meu trabalho.”

O plano é trabalhar cada lançamento individualmente – incluindo uma parceria com a banda conterrânea Black Machine – e, mais à frente, investir no projeto maior: uma mixtape. “Durante a quarentena, fiquei bastante empenhado em escrever músicas novas e trabalhar o planejamento de lançamento delas”, explica. “E aí, tem lançamentos previstos para esse ano, mas já estou preparando outros para o ano que vem.”

A ideia de uma mixtape vem da necessidade de produzir um álbum mais livre, que dialogue com o momento atual da carreira. Agora que Azizi MC já se transformou na referência artística que Izaque tanto procurava, lá atrás, o caminho é colher os frutos dessa metamorfose.

Foto da capa: /dilsonferreira

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