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LUA ZANELLA

Me zuava na escola, me zuava na rua
Ainda quer criticar uma luta que não é sua
Ainda zombou da minha cara
“Cê nunca vai ser uma estrela!”
Pra que ser uma estrela?
Caralho, eu sou a Lua!

Lua Zanella, Capeta

“Eu preciso da arte, é o que me sustenta de verdade, o que faz com que eu consiga ficar de pé. Então, acho que nem se eu não quisesse eu não me manteria como artista, porque é ela [a arte] quem me mantém”, comenta Lua Zanella durante nossa conversa de pouco mais de uma hora. 

A mineira natural de Vespasiano, mas que cresceu em Contagem, começou a se relacionar com a música ainda na infância em projetos na igreja. Mas foi em 2018, em uma festa LGBTQIA+ de Belo Horizonte, que passou a desejar os palcos. “Não achei um sonho tão distante e eu sabia que ia me aquecer estar ali em cima”, diz. “Comecei o processo de juntar grana pra fazer com que Popotchão acontecesse.”

E aconteceu. Ela lançou a carreira em 2019 com o pop funk Popotchão, seguido pelo poderoso single Capeta, em que declara de forma potente e sem meias palavras sua chegada ao meio musical:

Será que vocês tão preparados para a preta
Que tem a língua muito mais quente que o capeta?
Será que vocês tão preparados pra minha voz ecoar?

Hoje, aos 24 anos, Lua lançou o primeiro EP da carreira, Dama de Paus – seis faixas que apresentam um traço particular da artista, perceptível desde suas primeiras investidas na música: os versos afiados acompanhados de uma pegada pop feita para dançar. 

Foto e edição: /trevosow
Foto e edição: /trevosow

O pop vem da infância, herança de família, e também das divas que conheceu durante a adolescência. “E as minhas referências de rap, funk e ritmos urbanos fui criando depois dos 20 anos, quando saí da minha bolha”, revela. “Fiz aula de canto, canto coral, e conheci ainda mais ritmos e pessoas. Tive contato com múltiplos artistas, e isso foi me agregando e me construindo como artista.”

Ouvir as faixas que formam o disco é perceber que Lua passou por um processo de autoconhecimento ao longo dos últimos anos durante o qual pôde formar uma noção bem definida sobre o que deseja mostrar e como: “O Dama de Paus é realmente um EP que foi amadurecendo junto comigo, sendo lapidado ao longo do tempo. Porque as músicas já existem há algum tempo, mas foram sendo reescritas de acordo com como eu ia crescendo, amadurecendo e entendendo melhor quem eu era, o que eu queria passar, o que as pessoas iam ouvir.”

O título vem da principal inspiração do EP: a carta de tarô Dama de Paus, simbolizada por uma figura feminina cujos significados giram em torno da força, determinação, foco: “É uma mulher que carrega consigo o gato, que é o que está oculto em nós – inclusive, eu coloquei esse gato na capa do EP – e um girassol, que é afetividade e alegria.” 

Capa Dama de Paus
Foto e edição: /trevosow

Lua se coloca no lugar dessa mulher, ela é a Dama de Paus, assim como também se declara em suas músicas como Iara, a divindade dos mares; a Rainha da Praça Sete; a “Mula Sem Cabeça versão travesti”. Porém, entre todas as mulheres que a representam e podem ser encontradas pelo disco, uma se destaca como fonte inesgotável de inspiração.

“O DIVINO É MINHA MÃE”

O místico é presença constante em praticamente tudo o que Lua cria, seja praticando rituais e liderando um clã de bruxas no videoclipe de Capeta ou fazendo referências a seres e divindades das mitologias e do folclore brasileiro em Iara. Em Eu Sou Deus, contudo, ela dá um passo além ao traçar paralelos diretos entre a crença cristã e sua vivência como mulher transexual:

Um Apocalipse dentro do meu quarto.
Gênesis tentou impor meu gênero no parto
Até que um dia eu disse “haja luz” e aconteceu
Foi aí que eu percebi
Eu sou Deus

Resisto e carrego essa Cruz 
Das Trevas surgiu-se a luz
Me vesti para o juízo final
Com meu corpo, minha alma e meu pau

O discurso presente na faixa que fecha o Dama de Paus ganha ainda mais camadas quando a ouvimos dizer que carregou muita culpa durante os 19 anos em que se dedicou à fé cristã, até se desvincular de vez da Igreja: “A religião é algo feito para manipular pessoas, fazer com que elas fiquem cada vez mais limitadas e não questionem o Estado, porque, afinal, ela é o braço dele. (…) Respeito todo mundo que tenha e acredite, mas realmente entendo que esse lugar religioso não é para mim, e estou muito bem com isso, de ter conseguido me desvincular de tudo e não ter mais medo de nada porque, felizmente, não acredito em nada.”

Lua diz receber um retorno muito positivo de pessoas que dizem se conectar à letra de Eu Sou Deus e espera que o lançamento do videoclipe – que sai em breve – as emocione ainda mais.

Foto e edição: /trevosow

“[O vídeo] fala sobre a minha relação – já dando um spoilerzinho, uma quentinha – com o divino. Sobre o que é o divino para mim, que é a minha relação com a minha mãe”, revela. Durante a entrevista, ela se refere diversas vezes ao relacionamento próximo com a mãe como um dos pilares mais significativos de sua vida, como pessoa e como artista. Quando anunciou à família sua transexualidade, a mãe, que está se formando em Psicologia e estudava identidade de gênero à época, a acolheu sem dificuldades.

“Quando falo que o divino é minha mãe, é porque realmente é a única a quem eu devo glória”, diz. “O que eu estava martelando, hoje, na cabeça, era uma frase assim: ‘eles disseram pra crer, obedecer e não questionar. Mas eu questiono tudo, só obedeço à minha mãe e só creio em mim.’” 

O verso, diz Lua, surgiu de repente, assim como grande parte das suas criações: “Eu acho muito difícil não estar em um estado de criação porque sou uma pessoa que cria o tempo inteiro. Crio todos os dias um versinho e anoto desesperadamente, ou uma melodiazinha, e eu vou criando e juntando as coisas, juntando ideias. (…)  É assim que eu me mantenho enquanto artista.”

2020

O último ano provou para Lua – e para muita gente – como tudo pode mudar de um dia para o outro. Hoje, enquanto colhe os frutos desse momento importante da carreira, também reflete sobre os percalços que surgiram no processo. O surgimento da pandemia impactou diversas áreas de sua vida, para além do trabalho como artista independente.

Em um ano conturbado, teve o processo de mudança do nome na identidade interrompido e perdeu o trabalho como estagiária em uma creche na região leste de Belo Horizonte: “Eu estava feliz porque achava que trabalhar com crianças era algo que eu não teria acesso, pelo fato de ser uma mulher trans e saber como as pessoas são extremamente preconceituosas. Mas a [creche] Quintal me acolheu e foi lindo, as crianças gostavam muito de mim. Foi um momento muito bom e, quando começou a pandemia, a creche não conseguiu se manter e eles tiveram que romper o contrato comigo.”

Videoclipe Solo Lunar
Foto: /guilhermejdm

Juntou-se a tudo isso sua decisão de sair de casa e morar sozinha em uma ocupação estudantil, longe dos braços da mãe e da família. Mas aos poucos, diz Lua, tudo foi se ajeitando, até porque as relações que construiu no processo não a deixaram sozinha. No dia a dia, ela conta com a companhia do namorado que conheceu nessa nova fase e passou a morar com ela. Na arte, o apoio de dois amigos foi fundamental para colocar o Dama de Paus no mundo.

“Eu conheci os meninos da Almanaque há muito tempo”, conta. O duo criativo belorizontino formado por Guilherme Jardim e Samuel Fávaro realiza projetos audiovisuais com diversos artistas LGBTQIA+ da cena mineira independente. Eles são os responsáveis pelos videoclipes de Lua desde o primeiro single. “Popotchão foi o primeiro trampo sério – tanto deles quanto meu -, de produzir algo grande. A gente estava muito empolgado, deslumbrado, mas foi muito perrengue. Para o clipe acontecer, tive que produzir uma festa e o dinheiro que eu arrecadei foi o que a gente usou para pagar o clipe.”

Videoclipe Iara, com /wtf.nymph e /the_amerikana
Foto: /100erross
Bastidores Videoclipe Iara

Mas o levantamento financeiro por trás do Dama de Paus foi diferente. O duo da Almanaque incentivou Lua a inscrever o projeto na Lei Aldir Blanc, regulamentada para apoiar a classe artística durante o estado de calamidade pública causado pela pandemia. A aprovação foi o que deu à artista o orçamento necessário para idealizar o EP e remunerar toda a equipe por trás das produções.

O próximo projeto está definido: um álbum de 10 faixas que já tem nome e aguarda o resultado de um novo edital para começar a ganhar vida. Mas Lua não tem pressa em dar o próximo passo – ao menos, é o que ela tenta dizer a si mesma: “Eu sou uma pessoa que fica explodindo pra lançar coisa nova, sabe? Focar em planos futuros”, responde quando perguntada sobre o que vem por aí. “Mas eu preciso, às vezes, voltar para dentro de mim, entender que estou agora no processo Dama de Paus e que muita coisa pode acontecer com ele.”

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