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MALKA

“Eu acho que música é música. Acho que estilo musical serve pra jornalista poder escrever alguma coisa pras pessoas entenderem sobre o que se trata essa música. Eu sempre gostei de música, e o que atrai o meu ouvido está em vários cantos diferentes.”

Durante pouco mais de trinta minutos de conversa com Malka, é possível perceber que sua relação com a música vem de uma necessidade natural, sem qualquer exigência de definições ou porquês. A produtora, DJ e musicista multi-instrumentista de São Caetano do Sul (SP) carrega, em sua trajetória de 20 anos de carreira, parcerias com diversos nomes da música brasileira e internacional, navegando por diversos… estilos musicais.

“Há uns quatro anos, estava em uma fase em que não conseguia trabalho, não conseguia muitas coisas”, revela. “Eu falei ‘ah, quer saber? Vou fazer música com quem se propor a fazer música comigo, quem tiver vontade.’” Desde então, surgiram trabalhos com nomes como Céu, Luísa e os Alquimistas, Daniel Peixoto, INá IÊ e Mc Xuxu. Um de seus últimos projetos, antes da pandemia, foi acompanhar MC Tha em sua turnê Rito de Passá.

Malka também é a criadora da Trava Bizness, gravadora brasileira voltada a artistas transexuais e travestis que atua, hoje, como um projeto educacional, e é DJ residente das festas Mamba Negra e Sangra Muta, na capital paulista. Em junho deste ano, lançou nas plataformas digitais o single Quando o Baile Voltar, que abre uma nova fase da carreira autoral – mais solar, alegre e pop. Produzido durante a quarentena, o lançamento faz parte de um projeto maior: Praia do Meio, um EP de quatro faixas em que Malka canta a felicidade que busca encontrar.

A artista conversou com a /checaute diretamente de Natal (RN), onde idealizou, produziu e finalizou o projeto.

Um de seus últimos projetos pré-pandemia foi girar o Brasil com a turnê da MC Tha. Como é a sua relação com o palco?

M: Eu tenho uma relação de amor e ódio. Tenho muita ansiedade antes dos shows. Gosto de fazer shows e tudo dar certo, na hora que acontece. Mas acho que morro mais da expectativa do que do show em si. Então, quando chega a hora, vou tranquila. Fria como uma cobra.

Mas o que antecede me deixa muito ansiosa. Sou essa pessoa. Eu estive no palco nos últimos três anos. Fiz muito show, acompanhei mais umas seis ou sete cantoras ou bandas, além da MC Tha. A famosa gigeira.

Você, às vezes, precisa fazer vários shows para pagar as contas, conseguir manter a coisa funcionando, né? Eu faço sempre [o show da] Valéria Barcellos, quando ela vem para São Paulo. E ela passa de Zezé Motta a Edith Piaf, a Lauryn Hill, e assim, a gata canta demais também. Um excelente treino de ouvido, porque é daquelas intérpretes que quem canta tem que ir atrás, e não o contrário.

Então, me serviu muito de treino. Verônica Valentino é o mesmo tipo de cantora de frente – ela é quem leva a banda, e a banda tem que ir atrás. Toquei muito piano com Verônica porque é uma música nordestina, e a gente tem um repertório lindo de piano e voz com Chico César, Amelinha, Ednardo, Belchior. Tem de tudo.

E, ao mesmo tempo, MC Tha, com aquela pegada do funk com o candomblé. Com a Verónica Decide Morrer, a gente cantava rock’n’roll. Tem tanta gente. Acompanhei My Magical Glowing Lens, uma banda de indie rock mais psicodélica. 

Sempre gostei de músicas em vários lugares, não ia só pra um rolê, sabe? Gosto de ouvir música ao vivo de vários tipos. 

Foto: Divulgação
Nos últimos anos, você  parece ter se aproximado ainda mais de artistas transvestigêneres, com parcerias com MC Dellacroix, Alice Guél, MC Xuxu. Como é essa rede de cantoras, compositoras e multiartistas com quem você se relaciona? Ela teve relação com a criação da Trava Bizness? 

Na verdade, acho que todas as músicas que continuo fazendo são com pessoas que se aproximam de alguma forma, que a gente se dá bem. Estou voltando a fazer parcerias com a Ayaní, como fizemos no passado, na Trava Bizness, porque a gente é muito amiga, ela canta muito bem. Ela é uma das melhores cantoras não descobertas. A gente vai tentar fazer algumas músicas pra ver se consegue colocar ela no mercado, pra ela poder cantar. 

Quando a gente é muito próxima, as músicas vão se desenvolvendo. Com a Xuxu, estou fazendo uma nova música para o documentário dela, e a gente é bem amiga. Eu faço música a partir de uma conexão estabelecida, como fiz com a Luísa e os Alquimistas. No caso da Céu, fiquei amiga da Pupilo e do Otto em um show que fizemos no sul. E eu e Otto nos conhecemos por conta de shows do MST. Não tem muita escolha, é um caminho natural.

No caso da Trava Bizness, hoje, a gente já não está mais como gravadora, fazemos algumas coisas com relação a cursos e educação. Ela foi criada por uma necessidade de organizar, catalogar e deixar que essas músicas ficassem no nome das compositoras, com os direitos autorais certos. Porque eu comecei a fazer música com muitas delas e, por ser um lançamento independente, qualquer pessoa que está no underground, muitas vezes, lança música e não cuida dos direitos. 

É uma prática normal, no modo geral do mercado. A ideia era organizar essas músicas que a gente estava produzindo dentro de um lugar documentado. Porque elas, querendo ou não, são patrimônios de cada uma de nós, é nosso trabalho, nossa vida, e precisa estar organizado de alguma forma.

Mas a questão é que começaram a ser tantas interrupções, tantas coisas, que fugiu do controle financeiro. Precisava ter funcionário, essas coisas, e é muito complicado. Eu sou artista, não sou boa administradora. Descobri com a Trava Biznesss que o meu negócio é atrás da mesa de som. Sou boa em administrar as minhas coisas, mas quando pega um plano coletivo, muitas decisões, muitas pessoas… Tudo começou a virar uma coisa que eu não estava preparada, também. 

E você tem um estúdio próprio, né?

Tenho um home studio. É um estúdio que tem o essencial para fazer um disco perfeito. Tenho tentado melhorar ele cada vez mais, ter acesso a mais equipamentos, ultimamente, e tentar expandir. Mas é o segundo quarto do meu apartamento.

Foto: /larinhardantas
Desde 2018, você vem lançando alguns singles autorais. Lançou Pimenta, depois participou de algumas coletâneas, com Meus Remédios e Noite Escura, Trava Adentro. Esses singles, de alguma forma, dialogam com o atual momento da sua carreira e o EP que você está lançando, agora?

Música é o momento em que estou vivendo. Tem um disco próprio meu, por exemplo, que está pronto desde fevereiro do ano passado. Eu falei até que, talvez, lançaria no ano passado, aí ficou pra este ano, e talvez fique para o próximo. É um disco que vai para a Mamba Negra, e tomamos a decisão de que vamos lançar esse disco na Mamba Negra, quando voltar a ter [a festa].

Mas é um disco gótico, super obscuro. Um disco de música gótica brasileira, misturado a EBM, pós-punk. Já este EP que estou fazendo é pop, electro-pop. E o outro que vem depois, não sei, e nem quero saber também.

Quem quiser me ouvir, me ouve. Eu tenho uma carreira de produtora, mas posso fazer música pra mim. Posso me dar a esse luxo. Não preciso pensar em fazer um disco porque eu preciso tocar – gosto muito de tocar, mas quero que as pessoas se interessem por vários lados do que eu tenho a mostrar. 

Esse lado meu é o lado mais garotinha, mais feliz. Passei uma pandemia péssima, super deprimida. Esse disco é sobre eu cantar o que eu quero trazer pra mim, essa felicidade, ela vai chegar. Está chegando, e eu estou chamando ela. 

Fiz, também, um EP de cinco músicas que não foi lançado.

Na pandemia?

É, e não vou lançar. Porque eu estava muito deprê. [O disco era] muito darkzão. Eu estava me sentindo mal cantando aquilo. Sabe quando as paradas te machucam? Eu não estava a fim de falar sobre o amor que eu não tenho, a sociedade. Já fiz muita música de militância, é só você ir lá no meu Spotify que tem uma playlist com todas as que eu produzi, as minhas.

Já falei mal do Bolsonaro pra caramba. Eu sei que o momento tá foda, que a gente precisa falar disso, mas já estou falando disso nos últimos anos, repetitivamente. Então, que as outras pessoas, que ficaram caladas até agora – e são muitas – que façam. Eu, agora, quero olhar uma música pra mim. E espero que, ela sendo pra mim, seja para os outros, também. 

O que temos desse lançamento, até agora, é a faixa Quando o Baile Voltar e o título do EP, que é Praia do Meio. Por que esse nome?

Eu cheguei em Natal e fui pra Praia do Meio. E quando cheguei lá, estava tocando o meu remix da Linn da Quebrada. Era um bar LGBT, e foi muita coincidência eu chegar e estar tocando uma música [minha]. Aí, eu falei ‘pô, esse é o melhor lugar do mundo!’. 

Capa do single Quando o Baile Voltar
Foto: /des___na
E pra quem estava precisando de um descanso, deve ter sido o ápice da quarentena.

É, porque eu não vim aqui para Natal para trabalhar. A Luísa [Nascim, da banda Luísa e os Alquimistas] me chamou pra vir pra cá porque eu estava precisando de férias do meu trabalho. Estava muito cansada e falei ‘amiga, preciso passar uns 15 dias, um mês, em um lugar, preciso sair de São Paulo’. Ela disse ‘venha para o Rio Grande do Norte comigo, a gente passa três meses lá’. Eu falei ‘três meses, jamais’. Já estou aqui há quatro, e vou completar seis meses de estadia até voltar. Dá pra dizer que morei em Natal, já. 

Acabei trabalhando aqui à distância. Em casa, não mudaria muito isso. Mas, daí, a Becks veio com o valor do patrocínio, que possibilitou fazer um trabalho estendido. 

Você citou a Beck’s. O que esse patrocínio te ofereceu, a nível de produção?

Eles ofereceram um bom clipe, que é o que vamos lançar na terceira música. É uma correria danada, só não posso revelar as parcerias, quero deixar todo mundo curioso.

Mas dá pra imaginar algumas, né? Só não dá pra imaginar o bafo completo. Estamos no meio do processo de gravação [do videoclipe]. A próxima música, que sai dia 30 de julho, é um feat babado, também. Cada uma das três próximas músicas é um feat diferente. 

E rolou alguma influência musical de Natal nesse trabalho? 

Sim. Esse EP é meio que uma junção, assim, acho que Quando o Baile Voltar é a música sobre eu abandonando São Paulo. Porque eu tenho essa esperança do baile voltar, mas ninguém sabe quando vai ser. 

Agora, a partir da segunda música, a gente vai abrindo o que aqui [Natal] fez com minha música. Ela ainda é bem eletrônica, um pouco fora do que eu lancei até agora, mas a gente tem uma surpresa até o final do EP que é bem daqui, mesmo. 

A última é a última. Ela vai ser o que Natal fez comigo, porque ela é a despedida. Um feat muito bonito, e é de algo que ninguém espera. Vou para um estilo musical que ninguém imagina qual vai ser.

E, daqui para frente, o que você espera de quando o baile voltar de vez?

Curtir, agora, está difícil. Acho que ninguém está curtindo. Eu tenho sempre uma estratégia: quando quero fugir de alguma coisa, enterro minha cabeça no trabalho. Então, para não pensar na pandemia, eu faço isso.

Estou só esperando o baile voltar para ter aquela rave de três dias, para a gente poder beijar na boca de quem a gente não conhece. Precisamos disso, de novo. Mas, pelo jeito, o negócio está complicado, estou meio sem saber exatamente quando vamos voltar.

Mas tenho esperança que, quando voltar, a gente vai beijar bastante. A música [Quando o Baile Voltar] não fala de uma felicidade atual, é sobre a promessa de uma felicidade.

É a luz no fim do túnel.

É, acho que é o que a gente procura. 

Esse álbum é sobre fazer as coisas que eu quero, sem ter medo de nada. Sem deixar alguém mandar, seja o mercado ou o meu público. Quero fazer pra mim. Já estou com 36 anos, esse é o meu momento de fazer meu álbum de garota.

Foto da capa: /larinhardantas

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