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OLÍVIA DE AMORES

Manaus, março de 2020. Olívia de Amores lançava o primeiro disco da carreira solo, Não é Doce, apenas alguns dias após um decreto municipal estabelecer estado de emergência na cidade devido à pandemia. De lá pra cá, todo mundo sabe o que aconteceu: a situação se intensificou pelo país todo e a capital do Amazonas chegou a ser, em certo momento, foco deplorável do descaso político em meio ao caos.

Em meio a isso tudo, divulgar o disco deixou de ser prioridade para Olívia, que viu não só a carreira sendo atravessada pela pandemia, como o mundo e as pessoas ao redor também. Mas os temas e inspirações presentes no trabalho continuam latentes, ainda hoje. Isso porque a cantora, compositora e guitarrista distribuiu entre as 10 faixas do álbum seus pensamentos e divagações sobre as diferentes formas do amor, entre elas, o luto.

“Sempre achei muito piegas falar de amor romântico e evitei bastante isso”, confessa em entrevista à /checaute. Conversamos por áudios durante um intervalo em sua agenda dominada por um novo projeto, uma parceria que é seu primeiro lançamento desde o início da pandemia. “Mas teve sim uma perturbação na minha vida pessoal que me fez refletir melhor sobre o amor e como eu poderia fazer um esforço artístico de tirá-lo dessa zona.”

Em 2016, o falecimento de sua bisavó, também chamada Olívia, foi o que fez a artista mergulhar de vez na criação do disco e no sentimento da ausência. “Eu costumava dizer que ela era minha alma gêmea. E eu precisava mostrar isso”, comenta. Durante o ano seguinte, ela capturou vídeos de um segundo todos os dias e os reuniu em um curta-metragem para a canção Post-It, lançada em 2018 e inserida mais tarde em Não é Doce. O filme é pautado por essa perda, mas é também um aceno aos momentos mais leves trazidos por 2017, confirmando a predição da bisavó na gravação que o abre: “Vai vir muita coisa boa”. 

Foto: /corpontologico
Foto: /corpontologico

Se a arte e a música foram indispensáveis para que ela se recuperasse dessa perda, hoje, alguns anos depois, Olívia reage às devastações do último um ano e meio de outra forma. “Não é Doce foi construído de sentimentos bem pesados, bem duros pra mim, de muito luto. Mas é totalmente diferente de agora. Naquele momento, eu consegui pelo menos elaborar meu luto porque eram coisas da vida. (…) Mas eu não acho que o reflexo da pandemia – onde ela foi parar, o descaso, a negligência, as pessoas não poderem ser dignamente atendidas em hospitais -, isso tudo não é natural, e eu fiquei muda como artista.” 

E isso é muito vindo de alguém que consegue transformar em metáforas os sentimentos mais íntimos, buscando inspirações em pessoas, lugares e experiências ao seu redor e resgatando influências de vários cantos.

A LATINIDADE AMAZÔNICA E O ROCK DA GRINGA

A relação de Olívia com a música vem da adolescência, quando ganhou uma guitarra aos 15 anos e colocou na cabeça o desejo de ter uma banda. Após uma primeira experiência como membro de uma banda cover de System of a Down, começou a criar coragem para colocar as próprias composições no mundo.

Aos 17 anos, ela ingressou no Anônimos Alhures, um power trio de rock alternativo formado inicialmente por um baixista, um guitarrista e Olívia na guitarra e vocal. No álbum do grupo, A Maquinaria Começou a Rodar (2015), já se destacavam a voz vibrante e os versos da artista. Os dez anos de duração do Anônimos Alhures deram a ela experiência de sobra em cima dos palcos e dentro do estúdio. “É interessante ver Olívia de Amores como contraponto a isso porque, embora eu ainda tenha experiência de palco, minha vivência na carreira solo, na minha perspectiva, é muito mais de estúdio do que palco.”

E foram mais de dois anos dentro do estúdio até a chegada de Não é Doce. O álbum é resultado de toda a bagagem musical que adquiriu durante esses anos, tanto criando quanto escutando artistas que a inspiram, como PJ Harvey, St. Vincent e a chilena Violeta Parra, considerada a fundadora da música popular do Chile.

Foto: /efronito

“Mas uma coisa interessante na minha forma de compor é como basicamente o que mais me influencia não é música, são experiências”, revela. E como alguém que se afeta por várias possibilidades, foi natural a inclusão dos ritmos de suas raízes em sua música, para além do rock e do urbano: “Manaus, Amazonas, Norte, a Amazônia me inspiram muito como artista. É muito interessante quando a gente começa a compor, se propõe a fazer música, e percebe como o rock às vezes é uma referência totalmente alienígena ao que a gente é.”

“E é justamente o tempero da tua terra que vai fazer essa coisa mais personalíssima”, ela conta. Olívia destaca o brega, a guitarrada e o beiradão como os principais ritmos regionais presentes de alguma forma em sua construção como artista e na criação do Não é Doce. O videoclipe de La Cancionera, uma das faixas mais contagiantes do disco, é praticamente uma homenagem à cultura e ao povo amazonense. Nele, ela documenta uma viagem de cruzeiro por um rio da região, interagindo com pessoas e lugares por onde passa enquanto canta sobre um amor que não é correspondido na mesma intensidade.

“Eu verifiquei como o ser amazônico tá muito mais próximo do ser latino do que mesmo do resto do Brasil e nossa relação com a brasilidade”, comenta. “Isso [se dá] até pela nossa base étnica indigena, ela é muito mais latina. Ela não respeita as fronteiras do Brasil.”

“É muito legal pegar o rock e todas as suas referências gringas e trazer pro meu local, porque é como fazer um mix do que acontecia dentro do meu discman, dos meus fones, e depois do meu mp3 player – que era essencialmente rock e metal – e fazer esse mix com as ambiências. O que se ouvia na minha casa, na minha rua, no meu bairro?”

E não param aí as dualidades em Olívia de Amores. Para além do urbano e do amazônico, do latino e do que é de fora, a artista aproxima outros elementos opostos na busca por um trabalho repleto de originalidade.

ENTRE AMORES E PERDAS

Olívia considera o conceito de “jovem velha” como um lugar que a define muito bem como artista e a mistura do orgânico com o digital seja, talvez, o melhor exemplo de como essa percepção se reflete em sua música. “Eu gosto de tudo muito cru, e isso é muito presente em toda a minha vida artística”, diz. “Mas no Não é Doce eu incorporei muito do digital também. Muito sintetizador, teclado, muitos beats que produzi com o Bruno Prestes, meu produtor. E a parte percussiva do meu álbum tem elementos digitais junto com percussão, tambor, tudo isso.”

Foto: /efronito
Capa Não é Doce
Foto: /efronito

“Eu não consigo abandonar alguns caprichos de música. Ao mesmo tempo, sou uma pessoa que procura desenvolver novas fórmulas. Procuro me desafiar em originalidade, pelo menos”, confessa. “Originalidade pra mim é uma coisa crucial, e essa dualidade do orgânico e do digital é uma das coisas que propiciam um certo ‘desenvolver’ de um som novo.”

E esse equilíbrio dinâmico entre dois elementos também foi transportado ao jogo estético formado pelos videoclipes que lançou para as faixas do álbum. Em Abisso, ela mergulha – literalmente – no mundo dos animais abissais, transformando-se em versões diferentes de criaturas das profundezas em uma narrativa cercada de luz e trevas, claro e escuro. Já o videoclipe de Só Vamo reproduz um game retrô a la Mario Bros., em total contraste estético com o outro vídeo – o orgânico e o digital juntos mais uma vez.

Todo esse jogo de dualidades pensado e executado por Olívia traz ainda mais camadas a um álbum, que, tematicamente, carrega também a dramaticidade e a intimidade de uma artista que busca trazer seu ponto de vista sobre as diversas formas e desdobramentos do amor. 

Falar sobre o tema permitiu a Olívia liberdade para expressar sua sexualidade em uma intensidade que ela nunca havia feito antes. Quando perguntada se já se sentiu sendo colocada dentro de uma “caixinha” por ser uma cantora lésbica, ela diz que talvez sim – e que não tem problemas com isso: “Não me sinto limitada em ser entendida como mulher lésbica – uma mulher lésbica guitarrista, de certa maneira estereotipada por não performar uma grande feminilidade -, mas na música eu encontrei uma grande expressão. Não só das minhas necessidades artísticas, mas também de identidade mesmo – sempre fui melhor aceita dentro da arte.”

É com essa liberdade que ela navega por diferentes consequências e facetas do amor. “É interessante ver como o amor pode mudar e se camuflar de outras coisas que não necessariamente são amor, mas são decorrências dele, que são sentimentos negativos: posse, ciúme”, conta quando perguntada sobre o conteúdo do disco. “Enfim, eu queria falar sobre a pluralidade do amor e tirar essa coisa tão pura de se falar. Não é tão puro assim, é muito mais complexo. É sobre isso Não é Doce. E também, não menos importante, Amores é o anagrama para Moraes, que é meu sobrenome. Tem essa explicação toda, mas também tem a versão simples.”

Foto: Luana Zau
Foto: Luana Zau

Amores diz muito sobre Olívia, de onde ela vem, sua música, o que a motiva. E se o amor é um tema que a inspira e a coloca em contato direto com seu eu artístico, não é surpresa ouvir dela que os acontecimentos do último um ano e meio a deixaram muda. “Criar é muito difícil. Confesso que não consigo, não tenho conseguido, tô com um bloqueio emocional mesmo”, compartilha. “Espero que essa angústia uma hora destrave e abra alguns caminhos – não só os meus, mas de todo mundo. Acho que muita gente tá passando pelo que eu estou passando – muitos artistas também.”

A internet, o maior refúgio de artistas durante a pandemia, acabou abrindo portas para novas parcerias à distância, que chegam em breve – uma com a baiana CARU e outra com a banda gaúcha Black Bell Tone. “Como produtora, estou bem desafiada, mas otimista também. É um aprendizado muito útil para vida artística e com certeza vai influenciar bastante a forma como vou fazer meu próximo álbum – estamos trabalhando com tanta gente, muito diferente do processo que foi o Não é Doce, um processo solitário, bem fechado.”

Após uma viagem desacompanhada rumo aos desdobramentos do amor, talvez as novas companhias – mesmo que virtuais – tragam a Olívia o fim dessa angústia que ela tanto aguarda e a ajudem a percorrer um caminho um pouco mais doce.

Foto da capa: /efronito

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