CHECAUTE

ORVILLE PECK

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Pahrump, Nevada, EUA. Cenário de montanhas, deserto e picapes empoeiradas. A placa de neon de um bordel à beira da estrada indica: Chicken Ranch – Where the West is still wild! Em meio a garotas de programa e seus clientes, um cowboy mascarado canta as dores de um amor perdido.

Em janeiro de 2019, ao lançar o videoclipe para o single Dead of Night, o cantor e compositor Orville Peck promovia um resgate estético a toda a glória e decadência do oeste norte-americano. Esta referência se tornaria constante em seus vídeos, enquanto as canções exploram melodias do country clássico inspiradas por símbolos como Dolly Parton e Merle Haggard. Porém, o que chama a atenção no artista e o fez sair do total anonimato em Toronto, no Canadá, para em pouco tempo conquistar fãs pelo mundo é o que traz de diferente para o gênero.

Orville Peck e seu trabalho existem em um lugar onde country, cultura pop e cultura queer se encontram. Abertamente gay, ele diz compor suas canções a partir da perspectiva de um homem que se relaciona com outros homens. Nem todas as letras explicitam essa relação: Big Sky, em que canta sobre diferentes caras por quem se apaixonou, e Winds Change, ambas do álbum de estreia Pony (2019), são algumas das poucas que o fazem. Mas os videoclipes de Orville não escondem o artista queer que se esconde por trás da máscara.

Lançado em fevereiro deste ano, Queen of the Rodeo talvez seja o melhor exemplo de como as narrativas visuais dialogam com o estilo musical do cantor. O vídeo acompanha uma drag queen competindo pelo título de Rainha do Rodeio, em meio ao universo masculinizado do meio-oeste dos Estados Unidos. Ele reúne de maneira orgânica elementos muito distintos – as queens e os peões, o concurso de beleza e a brutalidade na arena – e destaca sutilmente a estranheza de cada personagem em tela. Embalado ainda pela canção melancólica na voz única de Orville, é como se o vídeo fosse fruto de uma parceria entre John Waters e David Lynch.

Pode-se dizer que o cantor é a nova adição ao movimento de artistas que atualizam gêneros clássicos da música estadunidense com o seu próprio estilo. Tomando emprestado nesse processo toda uma iconografia de referências à cultura norte-americana, é possível associar os temas das canções e a construção visual de Orville aos trabalhos de Lana Del Rey ou Kacey Musgraves. Ele canta sobre lugares e pessoas que conheceu e paixões que se perderam, mas o faz como uma carta de amor ao country dos anos 60 e 70.

POR TRÁS DA MÁSCARA

Mesmo antes das máscaras terem se tornado parte do cotidiano de todos, Orville já escondia seu rosto. Ele não revela sua verdadeira identidade, e quando perguntado em entrevistas sobre seu nome real é impassível ao afirmar que se chama Orville Peck. Para manter a fantasia, o cowboy ostenta uma coleção de máscaras de couro com franjas de diferentes cores e nomeia cada uma delas.

Mas além da figura exótica do cowboy mascarado, o que se sabe sobre ele é que tem cerca de 30 anos de idade, nasceu e cresceu em um país do hemisfério sul e chegou a viver em Londres por um tempo até se mudar para o Canadá, de onde lançou Orville Peck no final de 2018. Embora não tenha crescido em meio à cultura country, afirma ter se aproximado do gênero ainda criança. Com um background em teatro e balé profissional, diz ter sido preparado desde os dez anos de idade para se tornar um performer. Mas por que a máscara?

O artista costumava deixar em aberto o motivo de esconder o rosto, sugerindo que o público imaginasse o significado por trás do mistério. Porém, em entrevistas recentes durante o lançamento do EP Show Pony, ele tem comentado mais abertamente sobre o assunto. “Esse é o engano [das pessoas]: de que eu faço um personagem. Que eu coloco uma máscara, me torno Orville Peck, canto canções country, vou para casa e sou outra pessoa lá”, disse ele à Apple Music. “Essa é a coisa mais sincera que já fiz, e esse é o objetivo.”

Entrevistado durante o talk show The XChange Rate, Orville compara o uso da máscara à arte drag: “É como a representação de quem sou como cowboy. A música country, e qualquer forma de arte, funciona bem quando você mostra quem você é por dentro. (…) Acho que é por isso que me dou tão bem com drag queens, porque acho que uma boa drag queen mostra quem ela realmente é. E não é uma máscara, um personagem. É uma amplificação de quem você é.”

Disfarces não são novidades no meio musical. Seja em uma tentativa de esconder totalmente a verdadeira identidade (como o duo Daft Punk) ou de diminuir a atenção para a própria imagem (ei, Sia!), a estratégia tem sido muito empregada por artistas da música eletrônica, como Boris Brejcha. A rapper estadunidense Leikeli47 esconde o rosto sob uma bandana para que, segundo ela, o público foque somente em sua música e na mensagem que ela pretende passar.

Para Orville, de certa forma, é como se o mistério permitisse que ele colocasse no mundo sua verdadeira face, de forma exagerada, mas ainda muito pessoal. Dolly Parton tinha suas perucas, ele tem as máscaras. E parece estar dando certo.

Em janeiro de 2019, o cowboy comemorava as 20 mil visualizações em seus vídeos no YouTube. Hoje, alguns deles chegam a mais de um milhão. A rápida visibilidade que vem conquistando rendeu amizades com nomes da música como Diplo e Harry Styles, além de uma parceria com Shania Twain. O álbum Pony chegou a ser indicado à categoria de Álbum Alternativo do Ano no 49º Juno Awards (ou o Grammy canadense, pra quem ainda confia nessas comparações).

Com um alcance cada vez maior, é possível que em breve o cowboy misterioso revele de vez sua identidade, já que as semelhanças com um conhecido integrante de uma banda punk canadense tenham se tornado impossíveis de ignorar. Mas isso realmente importa? Orville Peck já está entre nós compartilhando suas dores amorosas enquanto espalha pelo mundo sua arte e, pela velocidade das coisas, não parece andar a cavalo.

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