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Reddy Allor
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REDDY ALLOR

Ao lançar o single de estreia da carreira, Tira o Olho, em janeiro de 2019, Reddy Allor não fazia ideia de que iniciava um nicho musical que reúne, hoje, diferentes artistas LGBTQIA+: o queernejo. A drag queen de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, começou a carreira musical aos doze anos de idade em uma dupla com o irmão mais novo e sentiu na pele os obstáculos que o meio sertanejo impõe aos que desviam do tipo másculo e viril reproduzido pelos homens cantores do gênero.

“Eu amava cantar, mas chegou um momento em que aquilo não era a minha verdade”, confessou Reddy em uma entrevista por videochamada para a /checaute, em junho. Guilherme – como é conhecido quando deixa de lado a peruca ruiva característica da drag – surgiu na tela com o rosto todo banhado em uma máscara dourada. “Fui fazer um peeling hoje e não sabia que precisava ficar 24 horas com isso na cara. Tive que vir assim”.

Aos 22 anos, Reddy já lançou o primeiro EP, Ascensão, e se dedica inteiramente à carreira de drag queen cantora. Mas foi um caminho complicado até conseguir se encontrar artisticamente sem deixar de lado as raízes afetivas que carrega da música sertaneja. 

Com o irmão, Gah Bernardes, ela se apresentou durante anos no circuito gigantesco – e bilionário – das festas de peão no interior de São Paulo, abrindo shows de grandes nomes da indústria. Porém, chegou a hora em que ela já não conseguia mais esconder – para os outros e para si mesma – que não era como ele e nem se encaixava na cultura do circuito sertanejo. 

“Eu estava em lugares em que as pessoas me discriminavam, olhavam para mim torto, deixavam de me contratar porque eu era afeminado”, relembra. “Quando me assumi [gay] aos 18 anos, foi um boom na minha vida. Já estava com uma carreira consolidada, fazendo show, ajudando minha família com as contas de casa, muita responsabilidade. Foi um ‘tiro na cara’ de todo mundo, inclusive na minha, porque eu estava me entendendo ainda.”

Foto: /guilerbe
Foto: /guilerbe

Mas o que mais chama atenção na trajetória de Reddy até hoje é que ela faz questão de separar a cultura de discriminação e hostilidade presente no mercado sertanejo da sua relação com a música sertaneja, que vem de família. E não é como se ela tivesse escolha: dar o play em qualquer faixa do Ascensão é ter a certeza de que ela é uma artista com raízes fincadas no gênero, para além de qualquer rótulo.

E ela não é a única a arriscar o caminho conflituoso entre as botas de couro e a diversidade da cultura LGBTQIA+. Por pura coincidência do destino, pouco mais de três meses após o lançamento de Tira o Olho, um novo representante da cultura sertaneja surgia, convidando todos a saírem do armário e irem… para o curral. Depois que Gabeu fez seu Amor Rural se espalhar pela internet, ele e Reddy assumiram as rédeas de um novo movimento musical: o queernejo.

PRA QUEM É O QUEERNEJO?

“Eu conheci o Gabeu logo depois que lancei Tira o Olho”, relembra Reddy sobre o início da amizade com o cantor. “Ele mandou uma mensagem dizendo ‘como assim você é uma drag cantando sertanejo? Vamos conversar!’”. O próximo passo foi trocar os contatos e descobrir que Gabeu era filho de Solimões, voz por trás de clássicos recentes do sertanejo como Bate o Pé e Na Sola da Bota, e estava prestes a lançar a própria investida no estilo musical, mas sob uma persona incomum: a de cowboy viado.

Juntos, Reddy Allor e Gabeu foram os primeiros nomes associados ao pocnejo – que, mais tarde, passou a ser chamado pelo nome mais abrangente, queernejo -, um movimento de artistas com raízes no sertanejo que busca construir o próprio espaço na indústria musical.

Para Reddy, essa revolução em um nicho tão tradicional parte mais da prerrogativa de criar um público ao redor do grupo do que de tomar uma parcela da fiel audiência do sertanejo mainstream. Ela chega a comparar o movimento com o que o feminejo – o braço do sertanejo formado por intérpretes mulheres – fez nos últimos anos, desconstruindo as barreiras e estereótipos do gênero musical. 

E, se não existem oportunidades para cantores abertamente LGBTQIA+ ascenderem nessa indústria, uma parcela do público que guarda relações afetivas com o gênero parece também não se ver representada nele. “O que a gente tem percebido é que muitas pessoas, principalmente LGBTQIA+, se identificam [com o queernejo] por se conectarem com as raízes”, compartilha. “Muita gente, principalmente do interior, cresceu ouvindo sertanejo, os pais, as famílias sempre ouvem muito sertanejo. Isso é muito forte no nosso país. Então, de qualquer forma, todo mundo sabe um Evidências.”

Videoclipe Louco & Abusivo
Foto: /guilerbe

Mas o que parece colaborar com a distância entre essas pessoas e o gênero são os casos recorrentes de homofobia e transfobia que continuam a surgir no mundo sertanejo. Em agosto do ano passado, Marília Mendonça chegou a zombar, em uma de suas lives, de um amigo que teria se envolvido com uma mulher transexual. Mais recentemente, foi a vez do cantor Zé Neto dar o tom homofóbico em uma de suas lives, e depois se defender dizendo que existem pessoas em sua família “que são de outras opções (sic) sexuais”.

“Acho muito legal a gente trabalhar a informação, levar nossas vivências através do diálogo, e conversar, explicar”, comenta Reddy sobre a posição dos artistas do queernejo em meio a esses acontecimentos. “Se posicionar na internet é uma cobrança extremamente grande, mas necessária. É muito necessário mesmo falar sobre esse tipo de situação. Muita gente do sertanejo acha que isso é normal e comete esse tipo de erro todos os dias porque, lá [na cena sertaneja mainstream], ninguém vai ficar barrando eles e falando que isso é errado.”

Reddy acredita que muitas pessoas LGBTQIA+ acabam adquirindo uma resistência ao gênero conforme crescem e suas experiências passam a ser questionadas e ofendidas por essa cultura. O queernejo pretende alcançar essas pessoas. “O queernejo carrega um público novo, de pessoas que se conectam com as raízes, mas que não deixam sua vivência de fora. Não tiram seu movimento, sua luta. (…) É muito incrível ver essas pessoas se conectando com a gente de alguma forma.”

Foto: /guilerbe
Foto: /guilerbe

Mas vale lembrar que esses artistas, que detêm a difícil tarefa de aproximar pessoas LGBTQIA+ do sertanejo, não são um grupo uniforme. Eles compartilham, entre si, suas experiências como artistas independentes e até criaram um festival juntos, o Fivela Fest, que teve sua primeira edição no ano passado, de forma online. Porém, uma rápida olhada pelo repertório de cada um deixa evidente a pluralidade de estilos e propósitos presentes no queernejo.

Gabeu abusa da estética do cowboy viado, com letras bem humoradas que trazem referências à vida rural misturadas a temas e expressões da cultura gay, enquanto se aproxima sonoramente do sertanejo raiz e do country. Já o mineiro Bemti navega entre sertanejo, indie folk, synth pop e MPB, tendo a viola caipira como marca. 

Juntam-se a eles outros nomes, como Gali Galó, artista não-binárie que tem levado sua transformação pessoal ligada à identidade de gênero às composições, Alice Marcone, Zerzil, Sabrina Angel e a dupla Mel & Kaleb.

Já Reddy trouxe ao queernejo a faceta mais comercial que o movimento experimentou, até agora. Com a chegada da pandemia, em 2020, e o cancelamento de projetos e shows, a drag queen abraçou um desafio ambicioso: planejar o lançamento de um EP, produzindo um videoclipe para cada faixa.

Foto: /guilerbe

Isso só foi possível porque ela e a equipe passaram meses estudando o mercado e criando uma logística de produção e divulgação que dialogasse com o que artistas do mainstream andavam fazendo. E essa escolha faz total sentido com a essência sobre a qual Reddy foi criada, já que, ao decidir ingressar novamente na indústria musical com essa nova persona, a ausência de artistas LGBTQIA+ no sertanejo já havia feito ela buscar inspiração de outro lugar: o Open Bar.

PABLLO VITTAR E O FIM DA FAMÍLIA TRADICIONAL BRASILEIRA SERTANEJA

2017. Pabllo Vittar dominava o carnaval com Todo Dia, parceria com Rico Dalasam, e nocauteava seu lugar no topo das rádios brasileiras com o hit K.O. No interior de São Paulo, a popularização das drag queens cantoras chegava aos ouvidos de Guilherme, que, até então, não conhecia a fundo a arte drag.

“Depois que me assumi [como gay], comecei a andar com pessoas novas, encontrar novas amizades, e conheci a Pabllo”, relembra. “Na época, acho que era 2017, ela estava lançando Open Bar.” A canção – uma paródia de Lean On, do trio Major Lazer – foi a responsável por transportar o nome da drag queen pelo país. 

Ainda em sua dupla com o irmão, mas já afetado pelos comentários hostis que ouvia na cena sertaneja, bastou uma mão amiga para fazer com que Guilherme vestisse a peruca ruiva pela primeira vez. “Minha melhor amiga, que foi por muito tempo minha stylist, era muito envolvida com festas aqui em Rio Preto. Ela já sabia que eu fazia shows e cantava, e falou: ‘por que você não canta de drag? A Pabllo tá aí, se lançando e fazendo um super sucesso com o público LGBTQIA+.’”

Até então, sua única experiência com “montação” – como o meio drag se refere à transformação do artista em sua persona drag – havia sido na apresentação do curso de iniciação teatral em que ingressou no mesmo ano em que compartilhou com a família que era gay. Na ocasião, interpretou a cantora Maysa em um monólogo: “Foi a primeira vez que me maquiei para o lado feminino, de fato, fiz uma transformação – praticamente uma drag. Usei peruca, vestido, tudo. Pra minha família, era pelo teatro, pela arte, aquela famosa frase.”

Antes disso, o primeiro contato com a maquiagem havia sido ainda na época da escola. “Sempre tive muitas espinhas, principalmente na adolescência, e isso me incomodava muito – até porque já era artista, tinha que lidar com câmera”, conta. A saída foi pedir ajuda para as primas, que cresceram com ele e costumavam se maquiar o tempo todo. “Eu não tirava a maquiagem por nada. Ficava maquiado o dia inteiro, comecei a treinar, eu fazia pele, e chegou aquele hype de fazer sobrancelha marcadona”, relembra. “Aí, você imagina: eu em uma dupla hétero, Guilherme & Gabriel, alisava o cabelo e deixava um topetão ruivo, usava lente de contato colorida, contorno, sobrancelha.”

“E aí, as pessoas sempre reclamavam e falavam que eu exagerava. Minha família falando ‘onde já se viu?’. Óbvio, as pessoas notavam isso, principalmente porque a maquiagem era uó”. Com todas essas lembranças e experiências na bagagem, o contato com o trabalho de Pabllo Vittar e o incentivo da amiga foram o empurrão que faltava para que ele começasse a treinar, de vez, a transformação para assumir sua persona drag.

Escondido da família, aos 18 anos, com uma peruca comprada pela internet e a roupa confeccionada a partir de uma calça, Guilherme criava Reddy Allor, com a ajuda da amiga e dos produtores da festa Trash Me, em sua cidade. O primeiro nome é uma referência à cor da peruca, que continua sendo sua marca até hoje. Já o segundo, experimente ler ao contrário. “Aquele show foi minha primeira montação”, conta. “Então, assim como a música já havia começado na minha vida sem tempo de escolha, minha drag já começou cantora. Queria mostrar minha voz.” 

Videoclipe Indecisão
Foto: /guilerbe

O processo até lançar Tira o Olho foi de muita experimentação. Reddy chegou a fazer alguns shows com um repertório composto, basicamente, de músicas da Pabllo e do pop internacional. O retorno que recebia, na maioria das vezes, era que sua voz não brilhava tanto no pop quanto costumava acontecer no sertanejo, e ela também sentia isso.

“Fiquei semanas tentando compor música pop, alguma coisa que falasse de rebolar, e mexer a raba, e não sei o quê, e não vinha na minha cabeça”, comenta. “E foi quando, conversando com meus amigos, que são minha equipe, falamos: e se a gente tentar uma música mais voltada para o sertanejo? Claro, misturando uma vibe mais pop, do lado drag.”

O próximo passo foi acionar o irmão. Gah Bernardes seguiu a carreira solo como cantor e compositor sertanejo, após o fim da dupla. Reddy pediu a ele uma canção que representasse sua drag, com um refrão chiclete que pudesse fisgar qualquer um. “Em 10 minutos, ele compôs Tira o Olho”, conta ela.

Hoje, três anos depois, Reddy colhe os frutos de seu projeto mais ambicioso até agora: o EP Ascensão, produzido e lançado durante a pandemia. 

A ASCENSÃO DE REDDY ALLOR

A faixa inicial, Louco & Abusivo, foi o primeiro lançamento autoral desde Tira o Olho, em 2019. Ela também marca a primeira composição de Reddy, que contou com a colaboração do irmão em duas outras faixas do EP: Indecisão e Deixa Ela Voar. As duas canções foram compostas por Gah e o grupo de compositores com quem trabalha. 

De Novo é de autoria de uma compositora paulistana que descobriu Reddy pelas redes sociais. “Louco & Abusivo é sobre sofrimento, e a gente precisava de uma música mais animada e chiclete para explorar o lado LGBTQIA+ com o conceito visual”, comenta. “Até escrevi um pedaço, ainda, ao final de De Novo porque senti que precisava de um linkzinho [com o pop].”

Capa do EP Ascensão
Arte: @saturnais

Reddy continua uma artista independente e recebeu ajuda da família e do ex-empresário para gravar, produzir e lançar o EP nas plataformas digitais. Mas isso não impediu ela e sua equipe de gravar um videoclipe para cada faixa. “Não foi nada fácil. A gente gravou [o vídeo de] Louco & Abusivo com 300 reais para alugar o estúdio por um dia. (…) Eu me maquiei quatro vezes, troquei de peruca quatro vezes, fiquei duas horas em cima do salto na mesma posição, amarrada. É um corre que quem vê o resultado pronto não imagina de jeito nenhum.” 

A busca pelo equilíbrio entre o sertanejo e o pop foi um dos motivos que levou à decisão de correr contra o tempo e o orçamento para produzir os videoclipes. Embora a mistura desses dois estilos forme a essência do que Reddy Allor representa, também é uma pressão constante em sua carreira.

“Estou me conectando com esse lado do country, do sertanejo, mas também sempre amei criar coisas novas e diferentes”, ela explica. “E este é um dos comentários que mais recebo: ‘ah, nada a ver um visual Pabllo Vittar com a voz de Eduardo Costa’”. Segundo a drag, é um julgamento que vem do próprio público LGBQTIA+.

Videoclipe De Novo
Foto: /guilerbe

E esse parece ser o principal desafio de Reddy Allor: construir uma relação de harmonia entre dois lados que nunca dialogaram entre si – a não ser do ponto de vista do rídiculo, como a dupla Rosa & Rosinha fez no passado.

Ao incluir a sanfona, o violão, o cajón e outros elementos característicos do sertanejo em sua carreira como drag queen, Reddy não faz nada de muito diferente do que Pabllo, Gloria Groove, Aretuza Lovi e outras cantoras do gênero já fazem. O que estamos presenciando é a construção de um pop brasileiro que busca, em suas raízes, a essência de sua personalidade, enquanto se aproxima da riqueza e da diversidade da arte drag.

Mas, enquanto Reddy Allor e seus colegas ainda tentam passar o queernejo pelas porteiras  da indústria musical, ela não tem dúvidas de que encontrou seu lugar como artista. “Eu descobri com minha drag um outro lado sobre o Guilherme. Aprendi muito sobre desconstrução, sobre não ficar preso em paradigmas da sociedade, e isso me ajuda muito. A Reddy ajuda muito o Guilherme.”

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